Eu não sou grande fã do Saramago, mas gosto muito de Ensaio Sobre a Cegueira. Não que seja um livro fácil de ler. Você leva algum tempo para se acostumar com o estilo e com o português de Portugal do livro. Ele não permitiu a adaptação do livro ao português Brasileiro. Citando o Erico Borgo do Omelete, o livro tem muito do que se vê nos filmes de zumbi do Romero: O que acontece quando o extraordinario acontece, colocando de cabeça para baixo a ordem social.
E assisti a Ensaio Sobre a Cegueira do Fernando Meirelles. Eu gostei do filme. E também não gostei.
Por que eu gostei? O filme é muito bem feito, a fotografia muito criativa, algumas interpretações inspiradas e cenas externas soberbas, alem da edição também muito precisa. Destaque para a cena em que a mulher do médico entra em uma igreja e os santos estão vendados. No filme a cena é gravada na igreja da Sé, em São Paulo, que é linda por dentro. Pena que a cena é curta. Trilha sonora correta, com alguns momentos engraçados como quando toca uma musica sertaneja e o guarda pergunta que merda de musica é essa.
O Mark Ruffalo esta muito bem como o medico, ele realmente se encaixou na minha imaginação. A rapariga de óculos interpretada pela Alice Braga é correta, sem arroubos. O velho com a venda do Danny Glover é chato (em especial as narrações em off. E definitivamente ele precisa de um fonoaudiólogo). O Don McKellar também esta bem como o ladrão.
Por que eu não gostei? O filme é muito menos impactante que o livro. Muito mesmo. O Saramago nunca tinha permitido a esse livro ser filmado pois diz que cinema destrói a imaginação. Mas a minha interpretação do livro, o que eu imaginei quando li, é muito mais forte que as imagens do filme. E são as imagens que ficaram na minha cabeça… só adicionando um rosto conhecido aos personagens. Não que o filme seja leve, pelo contrario, com certeza vai chocar as platéias mais conservadoras. Mas comparado ao livro, o universo retratado no filme é bem menos imundo, conservando mais humanidade que no livro. Faltou mais impacto na cena do estupro (não no sentido de mostrar de modo mais explicito, mas acredito que seria possível dar mais impacto. Nessa parte do livro eu tive que parar e tomar um copo de agua.) e ficou faltando uma cena fundamental, que é a do supermercado, quando os cegos descobrem o depósito. Alias infelizmente tem muito pouco no filme da história de quando eles saem do sanatório, que é um trecho do livro com cenas incríveis.
Outra coisa foi a relação da rapariga de óculos com o velho da venda. Ficou mau explicado no filme, brotou do nada no fim do filme. E as inseguranças do velho em relação a isso poderiam ser melhor exploradas. Alias, não foi praticamente explorado.
Outra cena decepcionante foi o banho que eles tomam de chuva já na casa do medico. No livro eu senti muito mais alegria, um alivio muito grande. Como se aquele banho, mesmo que de chuva, mas com sabonete de verdade os devolvesse toda a dignidade tomada pelos acontecimentos.
Eu também esperava mais da Juliane Moore. Pois na minha opinião apesar de os cegos é que perderam o que normalmente se define humanidade, apenas sobrevivendo, é a mulher do medico que na verdade mais se degrada, por ser a única que vê no que tudo se tornou. Eu não consegui ver essa degradação na interpretação da Juliane Moore. Mas isso é interpretação e talvez o Meirelles e ela não tenham interpretado o livro como eu.
Os destaques são o primeiro cego e sua esposa, interpretação acima dos outros em cena. Eles foram
interpretaram pelos japoneses Yusuke Iseya e Yoshino Kimura respectivamente. Uma interpretação bem cheia de emoção. Depois que a mulher dele volta da cena do estupro e ele se cobre, ele realmente mostrou uma humilhação que convence qualquer um.
Outro destaque é o Gael Garcia Bernal. Ele consegue dosar momentos engraçados e humanos e de extrema crueldade com seu Rei da camarata 3. Junto com o ator Maury Chaykin, que interpreta o contador da camarata 3.
Também foi bacana ver o Hercovich tomando água da sarjeta.
Agora eu espero o DVD com uma edição estendida, com tudo o que ficou de fora, pois sabe-se que o filme foi montado diversas vezes ate chegar ao formato que foi aos cinemas. Sabe-se que a montagem original não era “passável” em uma sala de cinema.
MAS… o filme vale sim o ingresso. E é uma boa introdução ao livro, para os que ainda não leram.
O livro está disponivel pela Companhia das Letras nas boas casas do ramo.
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