Como alguns sabem, outros nem tanto, eu adoro morar em Recife. Só acho essa cidade ruim quando me dá vontade de comer comida árabe, uma vez que aqui não tem um restaurante árabe bom. Mas também não tem mexicano bom. Nem coreano. Nem indiano. Bem, mas tirando a questão gastronômica e a pobreza em relação a teatro eu adoro Recife.
Mas como nem tudo são flores e eu sou o amigo critico, há algumas coisas realmente enervantes aqui.
Como por exemplo as calçadas. Andar nas calçadas aqui exige uma dose de atenção que só quem conhece sabe. Ou são os desníveis, ou os buracos ou os cocôs de cachorro. Isso porque estou falando de Boa Viagem, um bairro dos ditos “bons” daqui. Ah e sem falar que calçada é o mesmo que estacionamento para alguns motoristas filhos da puta. Por varias vezes você tem que arriscar andar pelo meio fio.
Eu não entendo como uma capital de estado deixa o calçamento nesse estado.
Outro problema enervante, mas esse de cunho social: Quando anoitece as ruas ficam coalhadas de
catadores de lixo, que literalmente sobrevivem dos restos que os moradores dos prédios daqui jogam no lixo. Os sacos de lixo são colocados na calçada e essas pessoas os abrem e recolhem tudo o que pode ter algum valor. E essas pessoas tem o poder de serem invisíveis, pois ninguém os nota, ninguém se preocupa, ninguém toma nenhuma medida. As calçadas e ruas ficam imundas após a passagem deles. O cheiro de lixo invadindo as narinas de todos, apenas sendo filtrado pelo ar condicionado dos carros de luxo dos moradores aqui.
Eu nem posso culpar os catadores, pois eles estão fazendo isso em busca de sobrevivência, não é diversão. Eu culpo é a prefeitura que poderia organizar junto aos prédios uma coleta seletiva e criar junto com essa população carente uma cooperativa para tratamento e distribuição desse material. Sei que não é uma solução mágica que se daria pronta da noite para o dia, mas essa situação não se criou da noite para o dia.
Agora três coisas irritantes, mas com relação a civilidade das pessoas:
Uma é jogar lixo nas ruas. Nas praias. Nas calçadas. É incrível como as pessoas jogam lixo nos locais públicos e sequer ficam envergonhadas. É uma coisa totalmente natural para o pessoal aqui. E não me venham com “ah, mas tem poucas lixeiras na cidade” porque tem pouco para mim também e isso não me impede de colocar meu lixo no bolso ate aparecer uma lixeira intacta. Alias o cocô de cachorro lá de cima poderia bem estar aqui nesse quesito, pois pouquíssimas pessoas andam com uma sacolinha para recolher o que os seus cachorros deixam para trás.
Nas tardes de fins de semana ou feriados a praia parece um imenso lixão. Tudo o que você pode imaginar é possível encontrar nas areias. Não custa nada as pessoas recolherem seu próprio lixo. E aqui também cabe uma ação da prefeitura pois ela deveria obrigar os barraqueiros (pessoas que alugam cadeiras na praia e vendem bebidas) a manter sua “área” limpa e os orientar para insistir que os consumidores não emporcalhem o local. Verdade seja dita, a prefeitura faz um trabalho hercúleo limpando a praia para que ela esteja limpa pela manhã. Mas o ideal é que não fosse necessário esse trabalho. E antes que falem “ah, são os de menor renda (eufemismo para pobre)” eu já de antemão discordo, pois vejo desde o mais pobre aos mais abastados fazendo o mesmo.
Outro ponto é a classe media aqui que se acha grande bosta. Ninguém diz obrigado. Ninguém é gentil. Ninguém sequer recolhe as bandejas do Mcdonalds na praça de alimentação dos shoppings. Antes eu pensava que era fato isolado, mas depois de mais de um ano morando aqui percebi que se outra pessoa esta te servindo, seja vendendo algo para você, seja servindo algo em um restaurante seja trocando dinheiro no ônibus, se torna “indigna” de sua educação. Mas o mesmo não se aplica por exemplo a um vendedor de loja de grife. Como ele esta bem vestido e no geral é alguém bem apessoado essa pessoa merece um pouco de educação. Não muita, mas um pouco pelo menos. O mesmo comportamento se reflete nas ruas, na educação dos motoristas em relação ao pedestre. Eu não tenho carro. Acho desnecessário ter um carro em uma cidade menor que a ZO de São Paulo. Isso me faz andar muito e enfrentar um desafio sempre. Qualquer hora serei atropelado. Pois no meu ver, tenho preferência em atravessar uma rua (claro que com bom senso, não atravesso na louca a Conselheiro, assim como não atravessava na louca a Paulista ou Consolação) ou passar pela calçada. Não foi uma nem foram duas vezes que eu já falei “passa por cima arrombado” e uma hora alguém vai passar. Mas enfim eu noto algo como “eu tenho uma Hilux de 150 mil reais financiada em 200x por isso tenho a primazia de passar por sobre você, estacionar na calçada e fazer o que quiser. Pois eu estou de carro e você não”. Claro que não são todos… há pessoas muito educadas com todos, que param o carro para você passar e esse tipo de coisa. Mas o que deveria ser a regra é a exceção.
Agora a cereja do bolo: A incrível capacidade que os homens aqui tem de mijar em qualquer lugar. Eles estão andando e de repente, não mais que de repente, eles simplesmente encostam em algum lugar, tiram o pau para fora e começam a mijar. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, fazer qualquer lugar como seu mictório. Não importa se é um muro, uma quina, um poste ou mesmo o pneu de um carro. Simplesmente tiram o pau para fora e mijam. Não importa quem esteja passando perto… tiram o pau para fora e boa. As vezes tem mijadas coletivas, vários encostam em algum lugar, tiram os paus para fora e despejam o conteúdo de suas bexigas. Na minha opinião nada depõe mais contra nossa alegada superioridade em relação às outras espécies que isso. Quando você faz isso não se torna melhor que um cão, ou mesmo um rato. Você cedeu ao seu baixo instinto, violando toda e qualquer norma de civilidade, expondo ao mundo sua falta de controle sobre suas vontades. Claro que uma vez ou outra eu já fiz isso, mas não sem sentir vergonha, não achando que isso é natural.
Enfim, mesmo assim, adoro morar aqui.
PS: Nossa, notei agora um enorme viés socialista no texto.
Talvez você também goste de::









